18/5/2009 -Economia
Os emergentes estão ultrapassados?
Recessão mundial deixa mercados emergentes à beira do esquecimento. Leia artigo de especialista.
Há menos de um ano, os mercados emergentes estavam na mira dos investidores globais. No entanto, o desmoronamento das instituições financeiras ocidentais e a ameaça imediata de uma recessão mundial estão deixando os mercados emergentes à beira do esquecimento.
Os países que mais sofrem com a crise geralmente são aqueles que têm grandes déficits fiscais e déficit no balanço de pagamentos. Os mercados reagem aos efeitos da queda do preço do petróleo sobre os países exportadores e outras matérias-primas, à capacidade para oferecer pacotes de estímulo fiscal e ao grau de importância das exportações no PIB.
Comparando os BRIC – expressão que se refere aos quatro países emergentes mais importantes: Brasil, Rússia, Índia e China -, é possível perceber que cada país recebeu a crise de maneira distinta. O impacto é mais agravado em determinadas regiões emergentes devido ao contágio financeiro e à enorme fuga de capital ante o risco de desvalorização da moeda, à queda da demanda externa e às variações dos preços de exportação.
Mesmo que alguns fundos de investimento soberanos tenham perdido bilhões de dólares após investir em bancos estadunidenses, como Morgan Stanley e Lehman Brothers, a crise das hipotecas subprime e os ativos tóxicos da crise nos Estados Unidos não afetaram diretamente a economia chinesa.
A China conta com uma série de recursos internos para combater a crise, entre os quais estão a demanda doméstica e o equilíbrio fiscal. O consumo privado ainda é inferior a 50% do PIB, o que levou o governo a tomar medidas para estimular o consumo. O pacote fiscal do governo aumenta o gasto em educação, saúde e pensões em 5% do PIB. O governo central também aprovou a iniciativa de destinar 586 bilhões de dólares a projetos de criação de infraestruturas para evitar a desaceleração do crescimento econômico. Por ser um importador de petróleo, a China se beneficia da queda nos preços.
Mesmo que as principais empresas de informática indianas, como Infosys, Wipro e Tata Consulting Services tenham culpado a crise financeira – visto que entre seus principais clientes estavam muitas instituições financeiras estadunidenses que sofreram perdas –, a Índia, no âmbito nacional, não está tão exposta à diminuição do comércio global.
As exportações indianas constituem uma parte relativamente pequena do PIB. A queda dos preços do petróleo também beneficia o país. No entanto, é de se esperar que o país receba menos fluxos de investimentos, o que atinge a liquidez do sistema financeiro. Assim como a China, a queda da inflação permitiu que o governo reduzisse os juros e a razão da reserva obrigatória. O governo lançou um pacote de estímulo com um valor superior a 1% do PIB.
Ao contrário de China e Índia, Brasil e Rússia são dois países bastante dependentes das exportações de matéria-prima e sofrem de forma mais acentuada a queda de demanda e dos preços de suas exportações. A queda dos preços do petróleo afeta especialmente a Rússia, que assiste a seus ingressos diminuírem e, como conseqüência, sua capacidade de aplicar medidas fiscais expansionistas.
O Brasil mantém uma posição ligeiramente melhor graças a uma situação fiscal mais sólida e a credibilidade de seu banco central, mas as exportações de matérias-primas como o minério de ferro à China, que representam aproximadamente 40% de seu mercado, são afetadas pela queda da demanda global.
É possível prever que o crescimento econômico da China se situe em torno de 7% ou 8%. Enquanto a economia indiana crescerá 5%, a brasileira reduzirá a taxa de crescimento em 2% e a Rússia terá crescimento negativo.
A liberação do mercado de capitais, uma maior abertura do comércio, a promoção do crescimento exterior e da exportação e a eliminação de barreiras alfandegárias foram medidas impostas às economias emergentes para poderem optar por empréstimos de ajuste estrutural do FMI e do Banco Mundial.
Atualmente, muitas economias emergentes analisam suas políticas internas, pois estão conscientes de que quase todos os países industrialmente desenvolvidos aplicaram medidas desse tipo para alcançar sua situação de privilégio. No entanto, é necessário enfatizar que o retorno ao protecionismo das economias nacionais e a adoção de fortes medidas de substituição às importações não são soluções viáveis. Tais medidas apenas conseguirão atrasar o período de recuperação da atual crise financeira global.
Autor: Sanjay Peters (professor de Economia da IESE Business School.
Fonte: HSM