31/8/2009 -Economia
É possível baixar ainda mais a Selic?
Copom interrompe o ciclo de queda da taxa Selic e professor analisa a conjuntura nacional e internacional.
Conforme esperado, o Copom interrompeu o ciclo de queda da taxa Selic depois de reduzi-la de 13,75% para 8,75% entre janeiro e julho. A Selic real ex-ante (DI de 360 dias descontado pelo IPCA esperado 12 meses adiante, conforme pesquisa Focus) está ligeiramente abaixo de 5%. A variação esperada do IPCA está em 4,37% para 2009 e 4,3% para 2010. A taxa de câmbio em R$ 1,85 por dólar para 2009 e 2010 (Relatório Focus de 14 de agosto de 2009).
Nada mau para uma economia que até outro dia era sacudida a cada crise externa: a fragilidade das contas externas e das finanças públicas sobredeterminava as alternativas de resposta de política econômica. Era preciso tratar a crise com juros altos, dada a fraqueza do câmbio, o que tornava imediatamente impossível a gestão das finanças públicas.
A pronta resposta dos governos e bancos centrais parece ter logrado evitar a depressão e viabilizou, pela brutal ampliação da liquidez, um forte rally (ou bolha) dos preços dos ativos entre fevereiro e julho do ano corrente. Os resultados mais recentes (dados do primeiro semestre do ano, com ênfase no segundo trimestre) sobre a atividade econômica apontam para a interrupção da recessão em diversos países, ainda que o comércio mundial encontre-se em nível até 30% menor do que o de antes da eclosão da crise financeira em setembro do ano passado.
Ademais, permanece dúvida razoável, e cada dia mais clara, sobre as possibilidades de a China “substituir” a demanda dos países avançados como elemento dinamizador da economia global. Transformar uma economia exportadora de manufaturas em economia movida pelo mercado interno é tarefa de décadas.
Por outro lado, o consumo das famílias dos EUA e as exportações dos países mais fortes da zona do Euro não vão voltar aos níveis de antes da crise sem o equacionamento, respectivamente, da capacidade de endividamento das primeiras e da recuperação dos parceiros comerciais dos segundos (principalmente o leste europeu).
Para não mencionar o fato de que o euro valorizado em plena vigência de contração de demanda não é
um bom sinal para a Europa. Agrava o quadro o fato de que o dólar desvalorizado também seria fator de
apoio à retomada dos EUA: o problema é que as duas moedas não podem ficar desvalorizadas uma em relação à outra.
Finalmente, os grandes temas identificados no auge da crise (governança global e do sistema financeiro em particular) ainda têm seu encaminhamento lento e hesitante. As medidas “saneadoras” do sistema financeiro dos EUA foram vistas nos balanços dos bancos (sem marcação a mercado) que contrastaram com os resultados dos homólogos europeus (repletos de aumentos das provisões para inadimplências). Sobre a governança global, o risco é que a melhora do humor nesse período de euforia iniba a busca de instituições mais seguras e transparentes.
Aqui no Brasil, os olhos se voltam à inflação esperada e aos juros futuros na tentativa de entender o espaço da política monetária adiante. Em primeiro lugar, as condições externas não parecem ameaçar o nível atual da Selic: recentemente, o Fed reiterou a postura expansionista de sua política, no que foi acompanhado pelo Banco da Inglaterra; cauteloso continua o Banco do Euro, no que não é acompanhado pelo da China ou do Japão. Aliás, preocupações explícitas com a conveniência de interromper os programas expansionistas, só na Austrália.
Em segundo, as indicações de sobra de capacidade instalada na indústria e de baixa ocupação no mercado de trabalho sugerem que o “fechamento do hiato” do produto está longe, mesmo com a recuperação do crescimento do PIB para zero em 2009 e algo entre 4% e 5% em 2010. Uma coisa é parar de piorar, outra é voltar a crescer em ritmo que pressione a oferta.
Nem o crédito é visto como capaz de expandir-se de modo a empurrar a demanda doméstica a níveis incompatíveis com a oferta: haja vista que parte relevante da recuperação do mesmo se deveu ao setor de automóveis, inclusive IPI, e parte à construção civil.
Do lado da oferta, a recuperação do mercado de trabalho aos níveis de emprego e formalização do ano
passado é condição para a expansão. Em quarto, o Copom avisou que não quer correr o risco de reversão abrupta em sua política monetária: com isso, o atual nível da Selic ainda precisa mostrar efeitos expansionistas sobre a atividade antes da “inevitável” alta. Os juros futuros apontam alta da Selic em 2010, inclusive no primeiro semestre. A explicação é a de sempre: algum dia os juros terão que subir...
Antes que tal profecia se realize, bem que o Copom ficou devendo mais 0,50% de corte na taxa básica.
Autor: Por José Francisco de Lima Gonçalves (Professor do EAE/FEA/USP e economista-chefe
Fonte: HSM